quinta-feira, 8 de setembro de 2011

DEBUSSY ( La Mer / la catedrale engloutie - Arabesqye I )

O homem morto
é aquele que só tem vida para trás
- não para a frente
( Vida pretérita não é vida
apenas alegoria de vida
metáfora para a alma morta
sem clorofila e outros glicosídeos
industrializados pelo violinista verde
a um tempo um boticário
e um hábil farmacêutica
dono de uma farmácia de manipulação
- um herborista enfim
herbolário ervanista )

O morto desquita-se da vida
que é o vegetal no ser humano
o qual faz a flora e o fauno
funções do corpo anatômico e fisiológico do fauno
olvidado nos compêndios de medicina e biologia
ou antropologia forense
Possui apenas memória de vida
na alma do retrato
- ponte de luz e sombra
dispersa no tabuleiro de xadrez
com o pé escuro da noite
e o pé claro do dia
a pisar as casas no tabuleiro
- relojoeiro
joeiro a joeirar

Ser de vida pregressa
sua vida é iconográfica
geometria de alma escapista
também verbal
de papel manchado de signos
desenhos em nanquim
- longe do vegetal
do verde vitalício
excepto até onde for pintar as bactérias
sua obra surreal por mãos de Joan Miró
e outros seres verdes naturais
atentos nos miosótis
teimando não serem esquecidos
( "Não-te-esqueças-de-mim"
é a letra da canção lendária
que geme o pobre miosótis
já planta a medrar no Jardim do Éden
primitivo corpo vegetativo do homem
- definido na onomástica como Adão
o Adão onomástico )

Não vegeta sobre o solo
( para clarinete violino terra fresca
com cheiro forte de raiz de erva daninha viçosa )
não mais é vegetativo
- o sinal é negativo para o vegetativo
e não passeia os cabelos crespos pelas ervas
com o pente da brisa fagueira
penteando folhas defraudadas ao vento
qual bandeiras de navios piratas
com bandeira negra hasteada
no navio do capitão Barba-Roxa
ou de algum corsário ou flibusteiro
piratas do Caribe
do mar do Caribe
o mar dos Caraíbas
- autóctones aborígenes indígenas
em pé de guerra contra os alienígenas

O sistema nervoso vegetativo
ao cessar o fluxo vital
o qual fui na água
- rio em cachoeira no sangue
procede à falência dos nervos e órgãos
( Pára os Órgãos dos organistas Buxtehude e Bach )
ao perder o vegetativo verde
na parada ou quietude incômoda da água
que não mais flui ("fluminense") em longo e doce riacho
- fluído indo para baixo
aonde o mar brame e espuma
( sem altitude na ""baixada"" dos Países Baixos )
O simpático e automático ( autônomo ) sistema nervoso
cuja função precípua é alimentar um berço de mar oceano
com uma berceuse composta por Debussy
pensa e nutre os demais sistemas
- pensa a vida
e sabe da alma
e do corpo humano
uma mescla de espaço preenche de matéria
e tempo dinâmico ou energético
- Entretanto o homem morto
que ficou deitado em cruz pelo caminho
é um objeto que perdeu a planta
e a semente angiosperma ou gimnosperma
espargiu pelos caminhos verdejantes ou ressequidos

O homem morto
não partilha do pistilo da flor campestre
portando não está presente na rede vital
que é vegetal nos primeiros passos invisíveis
de uma forma arbustiva a medrar
ou um tronco de árvore a se entortar
no frenesi por raios do sol
porquanto alma é verde
derreia-se pelo verde
- verde clorofilado
afinado pelo violinista verde
e o azul no céu
tocando uma berceuse cerúlea
antes que se proceda à calefação das trevas
e venha célebre montada num alazão
a amazona cuja missão é anunciar de anjo e trombeta
o apocalipse feminino que se avizinha
na ponta dos cascos com ferradura
batendo em ritmo o tambor do solo
( ou solo de tambor
no ritmar das patas do cavalo bravio relinchando pavorosamente
enfatizando que as bestas são convocadas
para porfiar ferozmente e até a morte
na guerra do Armagedom )
solerte e paradoxalmente entregue à própria sorte
e aos sortilégios das feiticeiras
- tudo antes que seja meia-noite
e surja o anjo exterminador
empunhando a espada justiceira
e o exército dos demônios
em legiões romanas
sustente a batalha até a alva
desmaiar no céu
que antes era treva
e boca de treva
a devorar cor
de anã vermelha

Sem sistema nervoso vegetativo
simpático e parassinpático
- carente desses sistemas de pensar a vida
construir arquitetar e manter a vida
hermética na alma
assim o homem morto
não pode mais pensar verde
pensar vegetal ou vegetativamente
refletir e defletir o verde na alma
pintada dentro de um verde invisível
com tinta pra semblante de taitiana
que Gauguim não pintou legível em espectro
não deixou pensada e relatada
mas apenas em nuances de cores do verde
extraído do ciclo vegetativo
que engendra a vida
e a engenharia da alma
( A engenharia da alma é mecânica
move-se no sentido vetor do latim
e na força em aceleração de Newton
o filósofo natural junto à Darwin
que também pensou a vida em natureza )

O homem morto
dependura-se no verbo e no retrato
porquanto sua vida é um artefato
sem alma na concha
- concha acústica
aonde se pensa foi parar o som do mar
no vento rascante

O morto é visível em seu tempo
apenas cercado pelos objetos do seu tempo
que mantém seu corpo metafórico ou em holograma
na jaula da iconografia ou da hagiografia
através dos móveis e utensílios circundantes
circunstanciais
que fazem o tempo
com mãos de carpinteiros e contabilistas
cercando-o de objetos e artefatos
os quais o daguerrótipo flagrou
como resquícios e relíquias no corpo do tempo
quando vivo o homem
a mirar do fundo do retrato
a cantar no fonógrafo
quedo no museu do som
sem as cordas das ondas senoidais ou vocais
registrando a voz guardada no relicário
- dentro do ouvido interno
que escuta o que alguém já ouviu
quando estava com o corpo imerso no tempo
- banhado pela água do tempo
que lhe dava alma
pingando vida na chuva
( O fonógrafo é um ouvinte do tempo
que capta a frequência do homem morto
canta e ouve com ele
junto ao ouvido de quem continua vivo
porquanto o fonógrafo é um ouvido externo
que promove a intersecção entre vivos e mortos
- artefato que guarda o tempo incólume
na Baía de Baffin
no Golfo de Carpentária
ou no mar Cantábrico )

Aquele que pereceu
é um ente inexistente
enterrado no ser
- com alma arraigado no ser
porém não alma natural
mas alma artificial
plantada no discurso
que recolhe e doa essências
onde não mais há existência
do ente fenomênico
que partiu o coração das cinzas
no charuto e no cachimbo
que faz o vento fumar
no evolar e enrolar da fumaça
em volutas espiraladas
que denuncia os caminhos
e a dança ou balé do ar
um bailarino com corpo de vento

O homem morto
Ah! o homem morto!... :
Este ser não mais existencial
teve a vida dissecada por conceitos
concepções filosóficas sobre essências
pois o morto é apenas um corpo sem porto de alma
sem visita de fantasmas
sem existência
sem prática do existencialismo humanista e ateu ou agnóstico
que caracteriza o sábio incréu
pois o filósofo sempre é céptico
diferentemente do parvo
sempre crédulo
e pronto para mudar de crença
conforme a política filosófica instante
no momento vento que passa
pelo om do coqueiro
e do coco que cai
no solo para coco
sopro e instrumentos de cordas no vento
- o vento é templo para música

A morte é uma realidade trágica
para dois poemas
- um poema trágico
ou canto do bode
que pode ser de Pã e dos sátiros
- enfim o canto não do cisne
a celebrar a morte
mas do fauno a afirmar a vida
e conceituar a alma em latim
porém não em significado cristão
mas sim em sentido de latim pagão de Roma imperial
sob césares tenazes e corruptos
Por fim o outro poema é o cômico
uma ópera para rompante de bufão italiano
- ópera bufa
originária da comédia da arte
e da comédia e sátira grega
com Luciano de Samosata no frontispício
e outra obra que traduz a ironia que perpassa o pensar grego
fluindo do racional ao irracional
desequilibrando Shopenhauer e Nietzsche
em tempo desagregado
do homem gregário
face ao morto solitário
ou em solitude corporal

A natureza em flor para o homem vivo
é o paraíso com serpente peçonhenta
- flora e fauna
no imaginário incapaz de ler símbolos
enroscados dentro dos signos
que os gregos tinham ao evocar o deus Pan
o grande sátiro
o bode meio homem
o fauno romano
- enfim um ser divino
porque ente natural ou silvestre
e social no culto religioso
que é o rito da tragédia
- um canto para um deus
ou para vários deuses
pois é a natureza em pelo eriçado de luxúria
que subjaz em inúmeras divindades
- subjacentes divindades
floradas no fauno

Hoje atua a superstição ingênua e totalitária da ciência conceptual
que não sabe ler o fauno
nem tampouco reconhece
a anatomia e fisiologia do fauno
antes a ignoram
por preguiça de desvelar o código subjacente
que assinala a semiologia do fauno

Inspirados e ancorados na obsessão cristã
sobre a monogamia
apresentam e cultuam tão-somente o corpo da deusa
ou corpo de mulher
que ficou sem a companhia de um deus no panteão natural
( e sem sexo consequentemente!
ou com sexo para boneca inflável...:
no uso sagrado da camisinha-de-Vênus )
quando surgiu os conceitos e onomástica para flora e fauna
vegetação e animal
em menoscabo ao princípio fundamental
de macho e fêmea
princípio da gênesis
e da razão suficiente nos filósofos
( eleatas estóicos cínicos idealistas realistas materialistas
pragmáticos ... de filosofia maior ou menor
consoante a necessidade contextual
que veste e reveste a alma
no que urge o tempo
sem mugir nem tugir evidentemente )

A realidade greco-romana
expressa em mitologia
( antiga ciência com poesia
ou ciência com alma
ciência viva
ou ainda filosofia
do filósofo natural à la Darwin ou Newton
ou da filosofia maior de Aristóteles
cujo objeto de estudo é a física ou natureza do fauno
e a metafísica ou pensamento humano
expressão que o compilador do filósofo cunhou
ao sair da física do estagirita
e o pensar do fauno sob o sistema nervoso vegetativo
através das artes poéticas e plásticas
e também da geometria
ciência que mensura o objeto metafísico ou apriorístico )

O estudo do animal enquanto fauno
do corpo do animal sob o corpo metafísico do mito
sendo a mitologia a metafísica primeva dos antigos
um corpo de estudos para pensar o que não é física ou natureza
consoante o "deus" ou a "deusa" seja da mitologia grega ou romana
Afrodite ou Vênus
Esta avoenga anatomia do corpo humano
ao mesmo tempo exprime o vegetal
presente no macho e na fêmea
porquanto é o vegetal o primeiro animal
ou animal lento
de gestos em outro ritmo dentro do tempo
gesticulando em outro espaço para olhar
e o animal
que é o vegetal lépido
livre da raiz
que o prendia ao solo
( A anatomia e fisiologia do fauno e da flora
pode ser estudado dentro do corpo humano
na semente ou sêmen do macho
que é o fauno romano
da indústria extrativista do mito
e no ovo da vida
objeto vital
que expressa o animal o vegetal
no animal fêmea
enquanto flora
na forma poética
e delicadamente poliforme da deusa Flora
ou energia quântica
consoante o violino empunhado pelo homem no tempo inventado
aventado para evento de vento nas narinas sopradas pelo oboé
arcano musical
no coro das Musas com o violino )

Hoje se despreza o fauno
ou forma zoomorfa do ser humano
ou os debuxos da idéia antropomorfa da divindade
presente no homem e na mulher
pela operação da mitologia
nas formas do fauno e da flora
em atenção ao princípio fundamental de macho e fêmea
na dança da natureza
que une fauno e flora
no amor sexual do homem e da mulher
primitivamente uma paixão
expressa na vontade do macho e da fêmea
que buscam se realizar no sexo
e neste dar à luz outro ser

Não obstante o bom senso
prevalece o contra senso
tamanha e tacanha a estupidez científica
transliterada para a onomástica
porquanto não mais o Fauno exprime a natureza do animal
no corpo anatômico e fisiológico do homem
bem como o vegetal
que é onipresença na folhas que circunda a cabeça do fauno
e a cornucópia à mão
pois a demência cristã
que tudo invadiu e perturbou gravemente
enfim, o imaginário sem tato para a arte e a natureza
na ciência cristã
apenas passeia pelo conceito de flora
a deusa da vegetação
ou diva vegetal
ou divindade presente na realidade pelo sistema nervoso vegetativo
que tudo cria e cura
graças ao poder inenarrável da criança miraculosa
( Todo o poder da criança
é o poder de Deus transliterado )
Todavia e contra toda perspectiva filosofante
hoje sob a ciência subserviente ao cristianismo
sobrevive apenas como objeto mental
a duplicação estéril e espúria do feminino
a ignorar a fertilidade
e a necessidade de paixão sexual
do mundo vegetal que está imerso nas matas do sistema nervoso simpático
parassimpático ou autônomo
com piloto natural e automático
autônomo piloto
que guia o sexo do homem
ao sexo da mulher
no princípio que move o universo
com flora e fauno
- e não flora e fauna
( não flora e fauna!
duas expressões para a feminilidade!
- uma aberração do pensamento )
excepto se a opção sexual se orientar no sentido da Ilha de Lesbos
onde se deu a poesia de Safo
que canta o amor entre mulheres
ou do homossexualismo na Grécia e em Roma

O homem morto perdeu a alma
ou teve sua alma retirada pelas narinas
e colocada numa ânfora
e junto à alma retirada cirurgicamente
veio tudo o mais para o exterior
ficando dentro apenas uma disfunção
em mefítica podridão
sob os bálsamos da múmia

Perdida a alma
que é a vida ligando tudo
colando o pó do barro
ou os cacos da ânfora ou o alabastro despedaçado
buscou a idéia
outra forma de alma
que não obstante a forma
não tem conteúdo de alma
não possui vida nem morte
existe e não existe simultaneamente
porquanto é uma mera concepção humana
um pensamento se procurando
no ser que cria o homem vivo
com a alma enterrada no barro do corpo humano

Enquanto idéia
o homem morto é tão-somente
a expressão da idéia em si
fechada em seu circuito ou diagrama esquemático
sendo uma idéia efetivamente algo universal
a simbolizar o homem universal
o qual de fato não existe
uma vez que tal homem
é todo homem ou todos os homens
ou todo homem enquanto indivíduo
separadamente ou insulado do contexto
o que não precede à existência
mas sobrevive apenas em essência lógica
escrita e apta para existir enquanto história
( glifos e hieroglifos e geoglifos nos genes
ou signos genéticos vivos
que se escrevem a si
escritores, auto-escribas que são do corpo humano
cuja arte passa de pai para filho nesta guilda )
e portando ao representar ao idéia de todos os homens
e joeirá-la individualmente
concomitantemente não resta na conta nenhum homem
apenas uma concepção
de que se ocupa a razão
um conceito desenhado
na fina geometria árabe da álgebra
que descansa em belos arabescos
e cálculos tão abstratos
que não são nada
ou então é zero ou menos zero
e também tudo e infinito
simultaneamente e no mesmo espaço

Por fim o homem morto
traz à baila
desde os primórdios
do primeiro morto
a deitar irremediavelmente por solo
a expressão que ficou na lenda do miosótis
a qual exprime uma eufêmia primeva e milenar
a sussurrar `a boca do moribundo
ou do amante preterido
que súplice implora pateticamente
para não se esquecerem dele
quando se perder no azul miosótis do céu
- um mausoléu acima
da cova rasa
a brincar com as ervas daninhas dos baixios
aonde descerá seu corpo
já sem anatomia e fisiologia de fauno
nem guirlanda para a noiva
( uma idéia poética para sexo
casamento reprodução desejo luxúria
e outros demônios de Fussli
que assustam o pobre menino cristão
no quarto escuro ou assombrado!
- sempre Íncubos e Súcubos
na pornografia da Inquisição espanhola!
pois somente assim se justificava
bater o martelo para condenar inocente bruxas
que nem eram bruxas
mas meros conceitos de bruxas )

Por fim e para por fim
- o homem morto
não ressuscita mais
mesmo que fosse cristão
daqueles mártires no Coliseu
servindo de entretenimento a Nero
os nobres e o povo de Roma
( Eles só ressuscitaram na realidade do latim cristão
que cultuava uma alma sobenaturalista )
Nem o latim de Roma
o latim oficial dos eruditos romanos
escrito e falado por Júlio César e Cícero
Ovídio Lucrécio Horácio e Virgílio Romano
que poderia ressuscitar
- de fato não o pode de fato
( "poderia" é verbo indicativo no tempo e modo de inexistência
ou impossibilidade fáctica de existência
apenas possibilidade teórica
ou no ser que o homem fabrica
como o conjunto das coisas
com os objetos e fenômenos naturais
e artificiais no homem
em seus sentidos e significados )
pois conquanto seja o latim
uma língua morta
- apenas um outro homem morto
ou uma mulher morta
sendo língua ou conjunto de signos e símbolos
reunidos pela mente humana
que as arrebanhou dentre os artefatos culturais
- sendo portanto o latim apenas uma língua morta
o que equivale a dizer : um ser humano em signos e símbolos
um ser humano tecnológico
um ser humano alienado no artefato que inventou
não obstante esse fato inconteste
- o latim não tem mais contexto
para ressuscitar enquanto língua
porquanto não está mais na teia da vida
na teia tecida pelos poemas alcançados pela língua
não tem como ressuscitar a aranha
ou a vida simbolizada no aracnídeo "tecelão"
apto a tecer uma teia pontificial
que seja ponte ou liame
entre a alma morta na antiguidade clássica
e a alma vital presente no mundo contemporâneo
alma coeva
Tal tarefa é impossível
mesmo sendo o latim
tão-somente uma língua morta
nada mais que um homem morto em signos e símbolos
com a cruz cristã
cruzando as pernas irônicas
sobre a pedra tumular
à beira da estrada

Do exposto pode se concluir
que nem mesmo uma língua
que é apenas um trapo de homem feito de signos e símbolos
não sendo um ser vivo
não trazendo u fauno dentro de si
pode ( não pode!) ressuscitar dos mortos
e voltar a estar entre os vivos
- imagine um homem
- o homem morto
voltar à vida
arrastar a alma que se perdeu no ar
de volta à inspiração das narinas ansiosas
ou sair da hóstia
tal qual um pintainho do ovo
retomando caminho a pé descalço
neste mundo hostil
com hostes de bárbaros
e hóstias de padres da igreja
a gemer "amém"
na eufêmia infinda
que prostra o homem
semelhante a uma fêmea no coito...
exercendo o santo ofício
ou o sagrado ofício da prostituição
antigo rito de purificação e sacrifício

O homem morto
não é mais o homem
perdeu-se do ser
perdeu o ser
não pode mais dar o ser seu
às coisas que ele transformava em objetos
no entanto continua no ente
presente no corpo cadavérico
que se desmancha paulatinamente
até restar apenas a caveira e os ossos
onde repousa em travesseiro final
sem fronha alguma
nem sono ou sonho
ou pesadelo pesaroso nos olhos
- até que o esqueleto junto com o crânio
desapareça imiscuindo-se na história da rocha
- estela escrita com geóglifos
na língua do fóssil
- língua morta
latim de povo morto

terça-feira, 30 de agosto de 2011

MACROBIOTA ( microbiota bioma filósofo natural naturalista mocho marimbondos )

Tudo o que era
virou cinzas
de um cigarro abandonado por um bêbado
na madrugada da lua amarela
quase aquarela
velha querela
sem taramela
tramela
onde tranque ela
na escrita em estela
entre o opaco da pedra
e a luz da estrela
curvando-se luxuriante à janela na viela
onde está pendida a flor da umbela
que zela pela chama da vela
no templo da vestal sagrada
com a bela donzela
a velar o que não deve ser desvelado
( O ato de desvelar é função do filósofo grego
não da sibila, pitonisa...
que vela o mistério
com sete véus )

Tudo foi queimado pelo tempo
e se transformou em cinzas :
a casa com o sótão
o vetusto sobrado
pedindo luar e sol ao anil
solicitando palmeira a barlavento
com marimbondos vestidos num xadrez
elegantes naquele fraque natural
a evocar noites e dias num tabuleiro de xadrez
de treva e luz branca
- num jogo de treva e luz
de anum branco e anum preto
aves de vôo claudicante
ou dividindo a noite e o dia
nos gêneros masculino e feminino
do célebre círculo chinês
que mapeia campos negros e brancos
no corpo oblongo do marimbondo
cujo vespeiro estava alicerçado
na parte de baixo da palma do coqueiro
que às vezes fazia o vento tremular
quando caía um coco com estrépido
ou uma palma já decaída
para um verde já acinzentado
verde terminal sonhando a palha
enquanto aguarda em semi-queda um pára-queda
descaindo no empuxo da ventania
ou num sopro de nada para cair fragorosamente
em meio à madrugada tecida a canto de galo
- cantor do candor da vida sentida
observada no corpo pelo lado de fora dos sentidos em sintonia fina
outrossim quando o vento vem bufando

Enquanto minha imaginação
joga xadrez no corpo dos marimbondos
lá naquele lugar que foi o lar
de dois pequeninos felizes
e pais encrustados na felicidade daquelas crianças
Lá ainda brincam felizes
um menino e uma menina!
- O menino e a menina!

Oh! quanta saudade de pai
sinto daquelas crianças!
- do pai que fui
com imenso orgulho
e pleno exercício da felicidade!

Pena que felicidade não volte para trás
e se repita incessante e intermitente
tipo chuva chata
( chula se não fosse chuva )
ou tal qual uma música
com musa e estro para poeta menor
da qual muito gostamos
e tocamos com frequência
porque gravada
no coração e fora dele
nos sinais do mundo lido pelo ouvido
no fonógrafo
que nos ouve
e ouve os vivos e os mortos conosco
e me faz ouvir junto ao meu pai
e aos meus filhos
com os ouvidos deles grafados no fonógrafo
- todos ouvindo juntos!
miraculosamente no mesmo tempo
( O estado da felicidade
está montado sobre o corpo do tempo pretérito
porquanto raramente a percebemos
no estado regente ou presente
porque o ato apaga a opulência infinita de detalhes
e a opção por uma espécie de felicidade
é exatamente pela imaginária felicidade
que não podemos ter senão naquele passado
quando as crianças ainda não haviam
conhecido os pruridos da puberdade
e transmutado a relação com seus progenitores
- Depois do tempo passar pelos olhos e ouvidos
pelo corpo todo com o pelo eriçado
e somente poder ter o aceite
endossado na forma de idílio
a única moeda e sinal
que impossibilite uma transação frustrante
Sem a faculdade de abstração
que permite eleger atos e fatos felizes
e evidentemente raros
ignorando peremptoriamente
os fatos existentes
apagando-os da memória
não é possível dar existência simbólica à felicidade
porquanto não há no ar felicidade sublunar
senão o que concerne à escolha
de alguns atos em formação de arquipélagos
ocorridos em ilhas cercadas por águas
que ficam num mar interior
- dentro de nossos sonhos mais caros
onde a felicidade é que não existe
porque não pode viajar de canoa
até aquele arquipélago inacessível ao mundo
porque fora do mundo
e dentro de outro mundo
inventado e criado por cada um de nós )

Lá atrás das folhas de um oval longo
brilhosas ao sol
escondida sob o palor refinado do luar
ficou preso à raiz
o pé de canela ascendendo reto aos céus
que não pode nos acompanhar
senão em espírito
pois a alma é vegetal
é um fauno que ainda está naquela árvore
exilado quando do êxodo
- A Caneleira ou "Cinnamomum zeylanicum"

Sei que se ainda vegeta
aquele pé de canela
tem também saudades das crianças!
- daquelas crianças afeitas ao natal
criadas para eternos natais
que podiam até dispensar Cristo
por supérfluo naquelas noites natalinas
bem como todos os estúpidos cristãos
com sua fé e ritos para a morte
ou para matar através da estupidez
implantada paulatinamente na alma cristã
de todos os filhos do latim não pagãos

Ainda havia o pé de pinha
o pé de carambola
e o mais de bioma
de macrobiota e microbiota
ali junto a lagartas e lagartos
verdes ou avessos ao verde
no coqueiro que subia torto
a escada de seu próprio tronco
rumo ao céu abaulado no azul
- no muito azul!
transcendente aos olhos
imanente ao olhar
feito para mar amar
- amar o mar de cada dia!
de anum branco a anum preto

Tudo ou quase tudo
ainda está lá
inclusive a lua latindo o amarelo
o latim cristão na palmeira
o latim de Roma no lugar da alma cristã
a dizer o que é alma natural
alma para naturalista
ou filósofo natural
( os cristãos são sobrenaturalistas
que enfrentam o mundo com o medo das crianças
no escuro de um anum anti-pomba branca
na casa de de trevas do tabuleiro de xadrez
cujos jogadores de luz e sombra
são a noite e o dia )

Todavia no transcurso de menos de dois anos
do nascimento de um menino em casa
aquela casa com um sótão
ficou lá como um museu
saiu do tempo
voou nas cinzas do tempo
- e o tempo com a antiga felicidade
não é passível de reconstrução
nem tampouco desconstrução no construto
porquanto não junta mais o pó
perdido a girar no tempo daquele sol
que já passou pelo zênite e nadir
- em menos de dois anos do nascimento de um menino!
- menos de dois anos e mais alguns avos
e avós no denominador comum!
do número do tempo apagado
do que foi fogo ou brasa no cachimbo
ou da lareira na fogueira de São João
cozinhando o céu noturno
ao som de num estudo de Chopin para piano
e o espocar de fogos
e pipocas na panela

Tudo virou cinzas
de cigarro ou charuto
cachimbo espiralado
acompanho as volutas de fumaça no ar
sua base aonde desenhar a fumaça branca
procurando caminhos para o céu
com a Via Láctea
algo no leite e um pouco assinalando ou sugerindo fumaça

Nada restou
nem cinzas do homem morto
na casa que enlouqueceu
e ficou sem porta e parte do telhado arrancado com violência
com a entrada toda suja
devido à falta de varrição
- com entrada impedida por ervas
que armavam laços aos pés
de quem ousasse lá adentrar
- da casa aonde passou a morar o louco e o mocho
e os morcegos leitores de trevas sapienciais
onde antes viviam duas crianças saudáveis e belas
montando estrelas no céu
- da casa que desapareceu no vento!
fugiu com a primeira ventania!
quando aquela família desmantelada
como se faz a um brinquedo quebrado
abandonou o lar...
- deixou para trás
nas cinzas de um universo pretérito
paralelo e em bolhas
o entretenimento dos marimbondos enxadristas
com os físicos quânticos
e os poetas menores
que sabem onde vive a poesia
no universo que não é maior nem menor
não importa se o objeto é uma galáxia
ou um simples azul miosótis

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

MARIMBONDO (wikcionario wik dicionario wiki enciclopedia etimologia onomástica)

Tudo o que era
virou cinzas
de um cigarro abandonado por um bêbado
na madrugada da lua amarela
quase aquarela
velha querela
sem taramela
tramela
onde tranque ela
na escrita em estela
entre o opaco da pedra
e a luz da estrela
curvando-se luxuriante à janela na viela
onde está pendida a flor da umbela
que zela pela chama da vela
no templo da vestal sagrada
com a bela donzela
a velar o que não deve ser desvelado
( O ato de desvelar é função do filósofo grego
não da sibila, pitonisa...
que vela o mistério
com sete véus )

Tudo foi queimado pelo tempo
e se transformou em cinzas :
a casa com o sótão
o vetusto sobrado
pedindo luar e sol ao anil
solicitando palmeira a barlavento
com marimbondos vestidos num xadrez
elegantes naquele fraque natural
a evocar noites e dias num tabuleiro de xadrez
de treva e luz branca
- num jogo de treva e luz
de anum branco e anum preto
aves de vôo claudicante
ou dividindo a noite e o dia
nos gêneros masculino e feminino
do célebre círculo chinês
que mapeia campos negros e brancos
no corpo oblongo do marimbondo
cujo vespeiro estava alicerçado
na parte de baixo da palma do coqueiro
que às vezes fazia o vento tremular
quando caía um coco com estrépido
ou uma palma já decaída
para um verde já acinzentado
verde terminal sonhando a palha
enquanto aguarda em semi-queda um pára-queda
descaindo no empuxo da ventania
ou num sopro de nada para cair fragorosamente
em meio à madrugada tecida a canto de galo
- cantor do candor da vida sentida
observada no corpo pelo lado de fora dos sentidos em sintonia fina
outrossim quando o vento vem bufando

Enquanto minha imaginação
joga xadrez no corpo dos marimbondos
lá naquele lugar que foi o lar
de dois pequeninos felizes
e pais encrustados na felicidade daquelas crianças
Lá ainda brincam felizes
um menino e uma menina!
- O menino e a menina!

Oh! quanta saudade de pai
sinto daquelas crianças!
- do pai que fui
com imenso orgulho
e pleno exercício da felicidade!

Pena que felicidade não volte para trás
e se repita incessante e intermitente
tipo chuva chata
( chula se não fosse chuva )
ou tal qual uma música
com musa e estro para poeta menor
da qual muito gostamos
e tocamos com frequência
porque gravada
no coração e fora dele
nos sinais do mundo lido pelo ouvido
no fonógrafo
que nos ouve
e ouve os vivos e os mortos conosco
e me faz ouvir junto ao meu pai
e ao meus filhos
com os ouvidos deles grafados no fonógrafo
- todo ouvindo juntos!
miraculosamente no mesmo tempo
( O estado da felicidade
está montado sobre o corpo do tempo pretérito
porquanto raramente a percebemos
no estado regente ou presente
porque o ato apaga a opulência infinita de detalhes
e a opção por uma espécie de felicidade
é exatamente pela imaginária felicidade
que não podemos ter senão naquele passado
quando as crianças ainda não haviam
conhecido os pruridos da puberdade
e transmutado a relação com seus progenitores
- Depois do tempo passar pelos olhos e ouvidos
pelo corpo todo com o pelo eriçado
e somente poder ter o aceite
endossado na forma de idílio
a única moeda e sinal
que impossibilite uma transação frustrante
Sem a faculdade de abstração
que permite eleger atos e fatos felizes
e evidentemente raros
ignorando peremptoriamente
os fatos existentes
apagando-os da memória
não é possível dar existência simbólica à felicidade
porquanto não há no ar felicidade sublunar
senão o que concerne à escolha
de alguns atos em formação de arquipélagos
ocorridos em ilhas cercadas por águas
que ficam num mar interior
- dentro de nossos sonhos mais caros
onde a felicidade é que não existe
porque não pode viajar de canoa
até aquele arquipélago inacessível ao mundo
porque fora do mundo
e dentro de outro mundo
inventado e criado por cada um de nós )

Lá atrás das folhas de um oval longo
brilhosas ao sol
escondida sob o palor refinado do luar
ficou preso à raiz
o pé de canela ascendendo reto aos céus
que não pode nos acompanhar
senão em espírito
pois a alma é vegetal
é um fauno que ainda está naquela árvore
exilado quando do êxodo
- A Caneleira ou "Cinnamomum zeylanicum"

Sei que se ainda vegeta
aquele pé de canela
tem também saudades das crianças!
- daquelas crianças afeitas ao natal
criadas para eternos natais
que podiam até dispensar Cristo
por supérfluo naquelas noites natalinas
bem como todos os estúpidos cristãos
com sua fé e ritos para a morte
ou para matar através da estupidez
implantada paulatinamente na alma cristã
de todos os filhos do latim não pagãos

Ainda havia o pé de pinha
o pé de carambola
e o mais de bioma
de macrobiota e microbiota
ali junto a lagartas e lagartos
verdes ou avessos ao verde
no coqueiro que subia torto
a escada de seu próprio tronco
rumo ao céu abaulado no azul
- no muito azul!
transcendente aos olhos
imanente ao olhar
feito para mar amar
- amar o mar de cada dia!
de anum branco a anum preto

Tudo ou quase tudo
ainda está lá
inclusive a lua latindo o amarelo
o latim cristão na palmeira
o latim de Roma no lugar da alma cristã
a dizer o que é alma natural
alma para naturalista
ou filósofo natural
( os cristãos são sobrenaturalistas
que enfrentam o mundo com o medo das crianças
no escuro de um anum anti-pomba branca
na casa de de trevas do tabuleiro de xadrez
cujos jogadores de luz e sombra
são a noite e o dia )

Todavia no transcurso de menos de dois anos
do nascimento de um menino em casa
aquela casa com um sótão
ficou lá como um museu
saiu do tempo
voou nas cinzas do tempo
- e o tempo com a antiga felicidade
não é passível de reconstrução
nem tampouco desconstrução no construto
porquanto não junta mais o pó
perdido a girar no tempo daquele sol
que já passou pelo zênite e nadir
- em menos de dois anos do nascimento de um menino!
- menos de dois anos e mais alguns avos
e avós no denominador comum!
do número do tempo apagado
do que foi fogo ou brasa no cachimbo
ou da lareira na fogueira de São João
cozinhando o céu noturno
ao som de num estudo de Chopin para piano
e o espocar de fogos
e pipocas na panela

Tudo virou cinzas
de cigarro ou charuto
cachimbo espiralado
acompanho as volutas de fumaça no ar
sua base aonde desenhar a fumaça branca
procurando caminhos para o céu
com a Via Láctea
algo no leite e um pouco assinalando ou sugerindo fumaça

Nada restou
nem cinzas do homem morto
na casa que enlouqueceu
e ficou sem porta e parte do telhado arrancado com violência
com a entrada toda suja
devido à falta de varrição
- com entrada impedida por ervas
que armavam laços aos pés
de quem ousasse lá adentrar
- da casa aonde passou a morar o louco e o mocho
e os morcegos leitores de trevas sapienciais
onde antes viviam duas crianças saudáveis e belas
montando estrelas no céu
- da casa que desapareceu no vento!
fugiu com a primeira ventania!
quando aquela família desmantelada
como se faz a um brinquedo quebrado
abandonou o lar...
- deixou para trás
nas cinzas de um universo pretérito
paralelo e em bolhas
o entretenimento dos marimbondos enxadristas
com os físicos quânticos
e os poetas menores
que sabem onde vive a poesia
no universo que não é maior nem menor
não importa se o objeto é uma galáxia
ou um simples azul miosótis

domingo, 28 de agosto de 2011

MAMBA (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia onomástica )

O poeta se escreve
- escreve para si mesmo
e não para outrem
nem tampouco para a tampa tamanha da posteridade tacanha
- um solipsismo de solipsista fanático
solidão em solitude
atitude eremita
com o caranguejo-ermitão
sem termos pelos ermos do profeta no deserto
buscando a ermida ou o eremitério
enfim a tebaida
por ser mui vulnerável
não ter carapaça

Os pósteros que se...!!!...
- assim esgrima aquele que se esculpe no ar
com uma geometria que se mensura
em signos materiais
e símbolos intangíveis e tangíveis
conforme a conta contábil
dos significados transcritos para o alegórico
em outra codificação para códice
- com cânone, sem cânone
canhestro estro do cânone e do cânhamo

O escritor é um Auto da Alma
- um Auto da Compadecida
o Auto da Barca do Inferno
que destina seu texto
para o fundo de seu ego
que é uma em âncora
de navio fundeado
na baía do escriba
Não se destina a olhos ávidos de curiosos leitores
roedores de textos
traças de alfarrábios
bibliotecários de Alexandria...

O erudito se corresponde consigo mesmo
na trilogia dos signos e símbolos
que enredam a história
( terceira parte da trilogia )
numa rede de teias para as aranhas presentes na narrativa
cuja primeira voz ou personagem e protagonista é o escritor
quiçá o único
no vazio aberto na casca e carapaça do corpo dos demais
que perderam o corpo e alma
para a trama do dono do teatro :
o poeta trágico ou satírico
épico homérico feérico
As outras personagens coadjuvantes
outras "ostras" em ostracismo
abrem-se no vácuo da casca do coco
e depois do espaço da casca
no vazio maior onde está a carapaça do coco
que armazena água
e massa branca comestível
- da alvura da areia que pisa a praia
com sandálias havaianas
quando a ilha é o Havaí
- Hawaii Hawaii
que não é aqui
é por aí alhures
( A carapaça do coco
tem a forma abaulada de um crânio humano
Endocarpo e mesocarpo
são arcabouços onde se aloja a polpa
- branca como a água branca
do coco-da-praia coco-da-baía
na Bahia cocada
Dentro da carapaça do coco
Por ali passa todo o universo
vindo de longe
e voltando para bilhões de anos-luz
sem que a água se mova um milímetro
sofra nenhum abalo sísmico ou sérico
nos seus eletrólitos
O coco sabe e tem notícia da galáxia mais distante em luz
conquanto não conheça a galáxia
mesmo porque não possui forma erudita de comunicação
Outrossim a galáxia mais longínqua
sabe e tem notícia do coco e do coqueiro
Por isso o poeta não escreve para ninguém
nem mantém uma correspondência de amor romântico
com algum mineral de outra Nebulosa
conhecida ou desconhecida
perscrutada pelo olho ou ocelo da barata )

O trovador a versejar em solo na vetusta Provença
- provençal e providencial
faz a bem-amada sonhar que é para ela
aquela ode retumbante
a descer nos cabelos encaracolados da cachoeira
a cantar outra ode
para bode Pan faunos e ninfas
com a lira de Ovídio e Horácio
a flauta de Pan
e a lira mais lírica que houve
e ainda se ouve
no ouvido do tempo
sem olvido no Letes
- a lira de Orfeu
jamais dada ao olvido
em paradoxais trocadilhos
com estribilhos

Porém para o filho ou filha
a berceuse suave
em pianíssimo
ouvindo Chopin
que é o pianista mais refinado para poesias românticas
- indo aos claros de luar com dedos de Debussy
a tocar ternamente na face do pequenino
da pequenina que dorme
- o sono dos pequeninos
Ah! o sono dos pequeninos!
- o sono das pequeninas e pequeninos é um sonho!
inenarrável depois que cala a berceuse
e a noite cala fundo
no calado da calada
rumorejando silente o rocio
em ouvidos moucos
loucos no arroio da madrugada
- riacho de orvalho límpido )

O rapsodo e profeta se inscreve no que escreve
- no círculo inscrito está escrito
descrito descritor
Entretanto não são destinatários
da carta do bardo
outro que não o próprio bardo
- o próprio remetente
ou emitente da mensagem cifrada
ininteligível aos outros
em epístolas para romanos

O aedo não tem interlocutor
e o que escreve
penetra no silêncio da poesia
e não sabe à poesia
mas à maresia
pois é impossível tocar na poesia
que jamais pode ser escrita
mas apenas vislumbrada na alma
de longe no horizonte idílico
no barco descendo o rio São Francisco
tocado pelo idílio da correnteza
e do remo sem pena de rêmige
Escreve num código hermético
com pena negra e pesada nas tintas
procurando esconder milhares de segredos
de si mesmo para si mesmo
pois para aqueles que finge sinceramente que escreve
gostaria de confessar
todos os seus pecados
e assim se aliviar com o confessor
do fardo pesado
a carga da gravidade

Contudo o leitor também não lê o aedo
ou o lê a medo
com a sensação da aparição iminente do deus Pã
o imenso e pavoroso Fauno dos bosques
que pode surgir abruptamente
como uma mamba negra
e subitamente inocular a peçonha letífera
por a morte em viagem no sangue
- num batel em travessia do mar vermelho
Portanto o leitor lê a si mesmo
se decodifica na pedra de Roseta
sendo Champollion de si
na escritura do aedo
no copta do poeta
desenhado na estela de Roseta
geometrizada no desenho lido pelo sábio fauno
que leu a pedra
decifrou o enigma da esfinge na estela
porquanto um fauno
ou inúmeros faunos é uma leitura decodificada da natureza
- do mais íntimo e recôndito em natureza
mais que a física e a metafisica de Aristóteles
que criou miríades de faunos na sociedade e na cultura
espargindo a sabedoria do fauno
que se centra em si
aonde vai e alcança seus sentidos
quando captam o território
até onde captam objetos
ali é o seu território
que embora pareça restrito e mapeado
limitado ou delineado pelo mapa ao alcance dos sentidos
mitigado ou reduzido pela capacidade da sensibilidade
é o universo inteiro
encerra todo o cosmos
dado num pedaço aparentemente irrisório
em um espaço que cabe num favo de mel
porquanto a totalidade integral do universo
tecido de galáxias e Nebulosas
está já presente integralmente na mínima parte
na abelha e colmeia ou em solitude
no átomo e nas partículas subatômicas
da química orgânica ou inorgânica
em tabela periódica de Mendeleiev
- o sábio e erudito russo de barba-russa
com perfil de Sileno

Nada é óbice no entanto
a que o leitor comum
de parcas letras e escasso conhecimento
leia o que não está próximo ao veneno da mamba negra
ou ao derredor do pavor que ocasiona a mera citação de Pã
o Fauno silvestre Silvano
- silvo de serpente peçonhenta
com a morte ostensiva na ponta do dente
Por isso o vulgo que lê
subjugado no cabresto
apto apenas para decodificar a vulgata
após a exegese e hermenêutica de seus pais espirituais
- os padres da igreja
cuja erística é devastadora
( de qualquer igreja ou instituição que os comande
não enquanto homens
porém na função de obedientes escravos ou servos da gleba )
- o vulgo ama o que lê
e não o que está escrito
mesmo porque o que está escrito
é um bilhete ou rito de passagem
do escritor a seu ego
ilegível ininteligível
infenso às investidas da erudição
excepto para os mais perspicazes exegetas
e os Champollions máxime da poesia de um Goethe
- máximo expoente da sensibilidade poética
e da inteligência filosófica e científica

O poeta é tão-somente um subscritor
daquilo que foi extraído dele
do fundo do vale e do campo vegetal
florescente em seu âmago
e trazido à lume pelo Fauno
do filão de sua alma

A alma do poeta é um Fauno

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

BOREAL (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia etimologico )

A morte de um amigo...
- com a morte ex-amigo à vista da gávea
avistada do alto da gávea
dá-se o fenômeno do homem morto
fenomenologia que rasga a túnica inconsútil do espírito
e mata o lado boreal do homem vivo
que ficava do outro lado do rio
- do rio de sangue do homem morto
quando este era vivo
e fluía para o mar vermelho

A perda definitiva da vida de um ente
com o qual compartilhamos o mundo
significa o embaçamento de um reflexo
na lâmina d'água
- o baque na água!!!
do corpo do suicida
que suicidou-se sem aviso prévio
abruptamente
enquanto os peixes mordiscavam o anzol
( A morte é em si
um suicídio corporal
ou corporificado no cadáver jazente )

É o fim de uma memoria de si
livre de si
despojada do ego
com canto e cântaro em outro ser
- É o esboroar do alter ego
o derradeiro sinal da alteridade
cujo território distava até o outro lado do ser
no campo mais ao norte ou ao sul
- com a alteridade vislumbrada no espelho partido
entre as montanhas de um pseudo azul
no quarto da lua que sonha o quarto crescente
ou o quarto minguante de lua sorrindo
com a boca do gato de Alice
numa abstracção de lua e céu nocturno
( Chopin ao piano
apascentando o noturno pastoril
com avena no sopro do pastor )

A perda de alguém próximo
na proximidade do delta do rio
que dobra o Nilo
rio e profeta do deserto
O Nilo são dois rios correntes
- um rio de água
e outro de crocodilo do Nilo
Todavia tal perda é um fato
que bate forte no espírito de quem fica
a ver o morto
- observar um ser humano envolvido deixar de existir
passar para o outro lado da vida
ou da alma
sem rio Nilo que o banhe
- a banhar e alimentar o sangue
- o rio Nilo que é uma água dúplice
água no rio e no corpo do crocodilo do Nilo
mas não mais no pó do sangue do morto
cujo passamento o levou para a outra margem do rio
e do crocodilo
- das duas águas vivas
O homem morto em pó
foi exilado para o lado com anti-matéria
- anti-matéria de alma
que não tem já em si
matéria alguma
senão a energia
que a sustem suspensa no corpo
agarrando o pó
que a mão da água não mais segura firme
na altura do céu
- enquanto o céu é um chapéu azul
para a mulher vaidosa
porém cheias de vida
transbordando alma
pela água em corredeira

Abandonado pela água
e com o espírito num enclave
na Pedra de Roseta do momento
que jamais poderá ser decifrada
pois não há tantos Champollions assim
dentre os homens comuníssimos
porquanto são os papalvos
que constituem o cerne social
fazem fluir o rio da vida social
no seu mísero cotidiano
sem ritmo circadiano
- o homem morto
é um peixe morto descendo a cachoeira
pois o que é já não importa
mesmo porque já não é
senão o nada que desmancha o corpo
com ação de bactérias e moscas gulosas
ávidas por carne em putrefação

O passamento de um irmão
ou um amigo de décadas
é uma abrupta ruptura de um vínculo
construído pela paixão no tempo
regada na água à clepsidra
e na areia à ampulheta
gota a gota
grão de areia a grão de areia
uma dana na água da clepsidra
e na areia do deserto
ajuntada dentro de uma ampulheta
ou Relógio de Areia
nebuloso na Nebulosa no céu noturno
( Que toque Chopin
um breve estudo ao piano )
É outrossim navegar separado
cada um num veleiro
no mar criado em meio ambiente de clepsidra
em bioma de ampulheta

Qual memória de menino
que se esvai nas bolhas de sabão
a transportar a alma
para longe do corpo
abandonando o espírito morto
assim é a vida a se esvair paulatinamente
caindo da altura do pó
em queda de anjo desidratado
se desmanchando em pó
perdendo-se no sopro de oboé do vento
que tange o pó para longe
a descair da altura da figura geométrica
que desenha e mensura o pó no pó
- no rio de pó que é o corpo humano sem água
totalmente desidratado
na curva do caminho
ao pé do caminheiro
do andarilho dervixe
- anjo em pó

Tudo isso é mais
- muito mais que o luar pode iluminar
com facho no amarelo
ou no branco da ossada
que devolve à lua à lua
no reflexo que resta ao homem morto
conspícuo no branco dos ossos e da caveira
dos olhos em sua parte branca e no esqueleto
todo branco
a brilhar sob a luz do luar
que busca refletir-se e defletir-se
num olhar recíproco
de lua e ossos
que não podem se ver
- olhar cego
similar ao olhar vidrado do morto
revirado num esgar
flertando com a lua
num flerte macabro
- o diabo e a víbora
o basilisco e a mamba negra
numa troca de olhares
entre a realidade e a ficção
- de olhar de quem não se vê
não se olha
senão por outros sensores vitais
ou nenhum sensor
no caso do anjo morto
ao rás do chão no pó
- anjo desidratado
do demônio ao rés-do-chão
decompondo-se entre as ervas
que recebem o canto
e os dedos no piano do vento
ou da brisa refrescante
rascante

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CARAVELA (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia etimologico )

A caravela era um moinho de vento /
que o vento empurrava /
na travessia pelo oceano /

Um moinho de vento /
com inovador conceito /
e desenho geométrico para o vento /
dar outro empucho /
( Um sistema de propulsão ) /

Ao invés de por a girar as pás /
na paz de Van Gogh em arte sublime /
a caravela recolhia o vento /
na barriga que a brisa ou monção /
estufava na vela branca /
pintada com cruz escarlate /
que identificava a Ordem dos Cavaleiros do Templo /

As caravelas semelhavam moinhos de vento /
- era o desenho da época /
ou moda conceptual de então /
para engenharia eólica /

A função da vela na caravela
era conter parte da força eólica em vela alva /
que inflava na forma de parábola cartesiana /
a fim de recolher o vento /
em sua alvura sob cruz cristã carmesim /

Se não era vela a catar o vento no cata-vento /
eram as quatro pás do moinho de vento /
as quais foram imortalizadas na ficção de Cervantes /
ao narrar a tresloucada investida do cavaleiro da triste figura /
contra as pás do moinho do vento /
arrostando-as com fúria impertinente /
Oh! pobre e triste cavaleiro andante! /
- Dom Quixote de La Mancha /
imagem melancólica do homem /
que será o homem morto /
e o homem ensandecido /
a poucos passos do abismo /
que se abre para o salto no vazio /
para o suicídio /
sem asas ou cruz cristã /
que arremeda a medo o desenho de asas /
que não servem à concepção do vôo /
sem laivo ou veleidade de aerodinâmica natural /
incapaz de desenhar e conceber
um planador com piloto que não fosse mórbido /
tentando inutilmente /
planar com asas sobrenaturais /
que não estão no planador /
mas na geometria sobrenatural do cristianismo /
que põe kamicazes no céu /

As caravelas e o cristianismo eram cemitérios de cruzes /
partidas pela procela /
partindo na procela /
partilhando da procela /
- braços abertos /
no amplexo fatal /
com o vento e o tempo /
- contra o vento e o tempo! /

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

TRUNCADOS (wikcionario wiki wik dicionario enciclopedia etimologia etimologico )

O pé de laranjeira que figura em em minha poética
na geometria da minha poesia
com a flor alva lavada pelo alvor avô da barra da alva
e o sorriso da barra da alva nos dentes
a cintilar orvalho no diâmetro da circunferência da gota de aljôfar
- a laranjeira com armadura medieval nos espinhos
com algum pó sutil de negrume na folhagem densa
exalando aquela fragrância delicada
que distingue o teor do perfume da flor de laranjeira
- esta laranjeira ideal
esta idéia de laranjeira
ou laranjeira em idéia platônica
captada em visões de laranjeiras nada platônicas
que a realidade põe em pé
com raízes a agarrar vigorosamente o solo
- a laranjeira plantada na minha poética
plana na origem de duas laranjeiras reais
as quais se confundem ou se fundem em uma única laranjeira
ou na idéia mesma da laranjeira poética
para uso romântico na língua romance
e para cindir o tempo e o espaço
da minha infância de um lado da casa
e da juventude no outro tempo
no espaço da casa contígua
onde morou um amigo
cuja alma foi perdida para a terra
ou para a laranja-da-terra
há pouco mais que sete dias
- finado há uns sete dias
( mas que são sete dias
para um comunista ateu
em seu ser e no de Marx?!
- um agnóstico que morreu corajosamente
recusando ser crédulo e pusilânime como um padre ou frade de Jesus
os quais vivem sob a mendicância e mendacidade
que caracteriza o homem do vulgo
ou o pseudo-monge preso a regras alheias
- alienadas na acepção dúplice de venda ou loucura
( são dementes e venais tais seres liquidados, falidos )
pois estes são a besta pior
com sete chifres ou sete cornos e a cornucópia
sete palmos sob terra
e missa no sétimo dia do niilismo sem-razão de ser
ou de conhecer em princípios
que evocam as raízes do conhecimento da filosofia
que vai de Aristóteles a Kant
em toda a extensão do fim da filosofia
com seu homônimo Marconi
nas ondas do rádio )

Uma das duas laranjeiras
foi a primeira laranjeira que conheci
e soube pelas emanações que formavam uma trilha
nos sentidos do menino
que se tratava de uma árvore de porte quase arbustivo
a qual existia no quintal de casa
quando era eu menino menino
pequenino menino
- menino de escalar o tronco torto e tortuoso do cajueiro
até o telhado de um barracão adendo à casa

Era um pé de laranja-da-terra
no dizer de minha mãe
fruto que tão-somente servia para fazer compota
pois a fruta era mui amarga
- mas pintava-se com um amarelo vivaz na casca!
e folhas de um verde escuro
- de um escuro perceptível mesmo com o o sol no zênite
tamanha extensão na treva tem a folha da laranjeira!
que possui ou ostenta
uma escuridão assombrosa no verde das folhas
nas folhas guardadoras de trevas
lastro de matéria negra
negra energia chiando no canto subliminar do universo
invadindo as regiões do cosmos com o espatifar de ondas escuras
- de uma escuridão de morte
escuras de morte!
ou presente na escuridão que precede a morte
e continua pela eternidade de olhos vendados
velados eternamente
- para sempre sem luz!
o outro véu que constitui o olhar

A outra laranjeira
que vi depois de longo tempo
que conhecera a minha laranjeira primeva
distava daquela alguns passos do Senhor dos Passos
indo da vida para a morte
com a cruz às costas
e a alma negra dentro do verde
ou mesclada à cor que alcatifa solo
para monge pisar ao longo do caminho
na travessia ou êxodo sem fim
- a outra laranjeira
Imagino que era da mesma espécie da primeira
Contudo foi naquela casa velha
com varanda com desvãos de madeira
onde morava um raro amigo com sua família
que percebi e respirei o olor da flor de laranjeira
enquanto a noite espargia trevas
na brisa fria que corria a esmo
e formulava o olfato da minha juventude
na equação química expressa no ar
em ondas de perfume
que formava uma laranjeira só de aroma
sem folha ou flores ou raiz ou tronco espinhoso

Entre essas laranjeiras
havia um clube
que tocava marchinhas de carnaval
madrugada fora ( ou dentro?)
no tempo da folia

Essas duas laranjeiras
acabaram sendo lidas como uma única laranjeira
na poesia que ousei temerariamente deixar por escrito
- lidas e escritas por mim
a pior antologia poética que reuni
porquanto a poesia que pode ser arrancada da beleza e do limbo
e escrita para ser lida
já é uma obra de violência em signos e símbolos
de violação alegórica
- é o que de pior se garimpou em versos truncados e fragmentados!

A melhor poesia
é infensa à leitura
e outrossim à literatura
por ser inatingível por meio da semiologia
e mesmo pela semiótica ritualizada pelo teatro
ou em enredo de drama no cinema e nas novelas
ou por via de qualquer sistema de língua e linguagem
ou ainda de representação humana
quer seja religiosa ou filosófica:
enfim, de qualquer outra forma humana
que não seja a manifestação da alma
- alma no sentido latim
e não no sentido cristão do mandrião
com asas e pás ao vento para mover moinhos de vento
e olvidar o tempo em um quadro de Van Gogh
então de olho pregado no tempo!
( O tempo que então estava nos moinhos de vento
soprava flauta ou trombone no nariz do pintor holandês
descendente da escola flamenga
que criou Brueguel, o velho
- pintor de Brabante )

Agora que o amigo
ficou com a alma presa à pedra
e o espírito fossilizado nos signos e símbolos de sua escrita
não há sequer uma folha de laranjeira entre nós
porque a minha laranjeira continua remando por flor e alva
mas a laranjeira do amigo morto
ficou no tempo
em que ele e a laranja-da-terra se miravam reciprocamente
- hoje essa laranjeira continua nua de espaço na terra do tempo
porquanto perdeu o espaço de terra
que ajuntava o anjo da laranjeira em sopro no ar para oboé
e não tem mais a alma do amigo falecido
para soprar o espírito de terra
e por a laranjeira em pé ante si
- frente a seu corpo
que se esboroou
no anjo em pó de laranjeira
que não mais entrou em espaço
na alma do amigo finado
sem corpo para vestir a si e a laranjeira
porque o tempo pode subsistir sem espaço
pode transcender a existência
sobrevivendo apenas com o ser
- tão-somente em essência
assim como o homem morto
vive ainda de memória
mesmo em terra de cajueiro
onde se plantou uma laranjeira
a planar no plano de Euclides, o geômetra
fora do espaço
no sentimento subjetivo que é o tempo
falando de um amigo como um homem morto
podendo decifrar o enigma de sua inteligência
no que ele deixou transcrito em signos e símbolos
se eu tivesse capacidade para penetrar seus escritos linguísticos
em simbólicos de seu pensamento
e do quanto ele sabia
que poderia ser mais ou menos do que sei eu
não obstante ser a história
- sempre narrada pelos sobreviventes de então
para os quais ainda há caminhos e passos
antes da queda no abismo escuro

Não há mais uma laranjeira
entre eu e o amigo morto
dividindo nossos espaços calcados no pó
que nos ergue em corpo pela energia
mas apenas no tempo
e de um lado só do tempo
até que meu tempo
se apague na alma

Não há mais no espaço interior
duas laranjeiras prenhe de laranjas-da-terra
porquanto uma ficou sem espaço e tempo
num interior subjetivo
de quem não mais existe
- Restou apenas a laranjeira que vejo no espaço exterior
geminado com o tempo
ou as duas laranjeiras minhas
uma no espaço e tempo exterior
e outra no espaço e tempo interior
do sujeito que não faz compota de laranja-da-terra

As duas laranjeiras
que no espaço objetivo eram independentes
fundiram-se-me em uma laranjeira una
unívoca na voz do odor

Já vira laranjais em renque
em aléia extensa
andando sobre raiz léguas sobre terras
carregados de pomos
como se fossem mulos

Todavia agora que o outro homem jaz morto
que estou sem uma parte do meu ego
alijado de alter ego ou espelho
sou um Narciso contemplando o suicídio na água
- sou um monge defronte a uma laranjeira
que recebe o reflexo da minha solidão
que se apagará também
com a luz noturna do mais amado dos vagalumes